DE OLHO NA CONTAMINAÇÃO

A preocupação com a segurança alimentar e a contaminação dos grãos por agrotóxicos no Brasil têm sido amplamente discutida na atualidade. A ação dos resíduos de pesticidas e sua influência na saúde humana vem se tornando fundamental para que tanto os produtores, quanto os consumidores prestem mais atenção naquilo que está à disposição no mercado.

 

No País, às principais causas de contaminação de alimentos são químicas e biológicas. Segundo a especialista e doutora em agroquímica, Fernanda Fernandes Heleno, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), no Paraná, a contaminação biológica ocorre pela ação de microrganismos (protozoários, fungos, bactérias e vírus), que são causadores de toxi-infecções alimentares. Já a contaminação química pode ocorrer pela presença de agrotóxicos, hormônios (sintéticos), antibióticos, detergentes, metais pesados, entre outros. “O uso de agrotóxicos em vários estágios do cultivo de alimentos, incluindo as etapas pós-colheita, é muito importante para a proteção e a preservação dos alimentos”, afirma ela. Entretanto, o uso excessivo desses produtos tem levado à contaminação dos alimentos. “Nós somos, atualmente, maior consumidor de agrotóxicos do mundo”.

Segundo Fernanda, há dois programas de monitoramento de resíduos de agrotóxicos em alimentos de origem vegetal em vigor por aqui. Trata-se do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), coordenado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e o Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCRC), coordenado pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa). 

“O monitoramento dos grãos, arroz e feijão, foi inserido no Para a partir do ano de 2008, e o do milho em 2012. Porém, os resultados relativos ao monitoramento de milho e feijão no ano de 2012 ainda não foram divulgados”. Ela diz que das 869 amostras de arroz avaliadas pelo programa, neste período, 89 (10,2%) estavam irregulares. Também foram analisadas 671 amostras de feijão, das quais 4,8%, ou seja, 32 amostras, apresentaram irregularidades. “A Anvisa destacou no relatório de 2008, a presença de diurom, um herbicida não autorizado para uso na cultura de feijão, que provavelmente foi utilizado incorretamente como dessecante ou para antecipar a colheita”, declara.

Já a professora da UFV, Lêda Rita D'Antonino Faroni declara que os resultados das duas primeiras culturas analisadas mostram que os limites permitidos de contaminação estão acima dos índices determinados pela legislação.

No monitoramento feito em todo o Brasil entre 2011 e 2012, o mais recente divulgado pela Anvisa, o pimentão aparece como a cultura com o maior índice de amostras irregulares, com 90%. “A lista se completa com a cenoura em segundo lugar (67%), o morango em terceiro (59%), o pepino em quarto (44%) e a alface em quinto (43%)”, declara Lêda. Arroz e feijão apresentaram 16% e 6% de irregularidade, respectivamente.

Interferências na saúde humana

A professora diz ter estudos sobre o mecanismo de ação desses agrotóxicos no ser humano. Segundo ela, esses produtos agem no sistema nervoso central e como consequência, o efeito dos agrotóxicos no organismo pode provocar tremores, excitabilidade e até mesmo uma parada respiratória.

Já Fernanda, alerta ao dizer que a contaminação humana relacionada à ingestão de produtos contaminados por agrotóxicos é menor que a dos trabalhadores que manipulam estas substâncias. Para ela, os principais fatores responsáveis pela contaminação de trabalhadores são a inexistência de uma política mais efetiva de fiscalização e aconselhamento técnico adequado na utilização destes produtos, o baixo nível de escolaridade, que torna difícil o entendimento de informações técnicas, as práticas exploratórias de propaganda das firmas produtoras, o desconhecimento de técnicas alternativas e eficientes de cultivo, a pouca atenção dada ao descarte de rejeitos e de embalagens. “Além disso, também há a utilização dos agrotóxicos e exposição continuada a esses produtos”, declara.

Estudos realizados por pesquisadores de diversas regiões do Brasil têm encontrado um elevado percentual de agricultores com episódios agudos ou subagudos de intoxicação. “Em um desses trabalhos a sobreexposição a determinados produtos, revelou um considerável elenco de queixas de agricultores”, diz a doutora. Segundo ela estavam entre as reclamações o rubor facial, o lacrimejamento, a rinorréia, a irritação ocular e dermatite por contato. Foram também diagnosticados quadros de neuropatia tardia e distúrbios neuropsiquiátricos associados ao uso crônico a organofosforados, e, quadros de síndrome neurocomportamental.

Fernanda comenta que estes pesquisadores observaram também uma elevada prevalência de sinais e sintomas relacionados à exposição aos agrotóxicos, especialmente dor de cabeça, visão turva, vertigem, fadiga, fraqueza, cãibras e distúrbios cognitivos. Tudo isto com oscilação entre os períodos de plantio e colheita da safra. “Há pelo menos 50 agrotóxicos que são potencialmente carcinogênicos para o ser humano”. 

Outros efeitos de especial relevância são a neurotoxidade retardada, as lesões no sistema nervoso central, a redução de fertilidade, as reações alérgicas, a formação de catarata, as evidências de mutagenicidade e, consequentes alterações genéticas. Além das lesões no fígado e os efeitos teratogênicos.

Para melhor a saúde

Para que haja a correção dos níveis elevados de contaminação, o desenvolvimento de tecnologias capazes de degradar os resíduos dos agrotóxicos nos alimentos antes do consumo torna-se o principal desafio. As tecnologias modernas adotadas com este fim incluem o uso de radiação ultra-violeta (UV), peróxido de hidrogênio (H2O2), óxido de titânio (TiO2) e o gás ozônio (O3). “O uso do ozônio vem se destacando, graças ao elevado poder oxidativo e facilidade de obtenção deste gás. Alguns estudos têm apontado o potencial do ozônio como agente de degradação de resíduos de agrotóxicos em diversos produtos vegetais”, diz Fernanda.

Para Lêda Faroni o ozônio é superior ao cloro porque não deixa efeito residual na água. “Além disso, o produto é um excelente biocida, porque atua tanto no controle de microorganismos, como em insetos”. Segundo a professora, é possível gerar ozônio em laboratório e já são comercializados no Brasil equipamentos que o fornecem para tratamento de água. Com isso, pode-se eliminar os resíduos de pesticidas, resultando no ganho de vida útil desses produtos, pois ficarão descontaminados. A ideia é que o usuário final adquira os produtos já detoxificados pela indústria.

Fernanda diz que o que diferencia o ozônio do cloro na desinfecção da água é o seu mecanismo de destruição dos microrganismos. “O cloro atua por difusão através da parede celular, para então agir sobre os elementos vitais no interior da célula, como enzimas, proteínas, DNA e RNA”, declara. Já o ozônio, por ser mais oxidante, age diretamente na parede celular, causando sua ruptura, demandando menor tempo de contato e tornando impossível sua reativação.

Fique ligado!

Para que os consumidores saibam quando estão consumindo produtos contaminados pelo agrotóxico, a Anvisa recomenda a opção por alimentos rotulados com identificação do produtor, o que pode contribuir para o comprometimento dos produtores em relação à qualidade dos seus produtos e à adoção de boas práticas agrícolas. “Desta forma, eles colaboram e fomentam as iniciativas dos programas estaduais e das redes varejistas de garantir a rastreabilidade e o controle da qualidade dos alimentos”, declara Fernanda.

A Anvisa também ressalta que os agrotóxicos aplicados nas culturas agrícolas têm a capacidade de penetrar no interior de folhas e polpas do vegetal, e que os procedimentos de lavagem e retirada de cascas e folhas externas das mesmas favorecem a redução dos resíduos de agrotóxicos, limpando a superfície dos alimentos, mas sendo incapazes de eliminar aqueles contidos em suas partes internas. “Da mesma forma, a higienização dos alimentos com solução de hipoclorito de sódio tem o objetivo de diminuir os riscos microbiológicos, mas não de eliminar resíduos de agrotóxicos”. 

Por fim a especialista diz que a opção pelo consumo de alimentos da época, ou produzidos com técnicas de manejo integrado de pragas, que em geral recebem uma carga menor de produtos, reduz a exposição dietética a agrotóxicos. “E aqueles oriundos da agricultura orgânica ou agroecológica, além de aceitarem apenas produtos de baixa toxicidade, contribuem para a manutenção de uma cadeia de produção ambientalmente mais saudável”, finaliza.

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Da Redação

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