REFUGIE-SE!

A necessidade da utilização do refúgio para prolongar a vida útil das tecnologias utilizadas no campo, como por exemplo, as de característica de resistência a insetos e tolerância a herbicidas transgênicas, têm se tornado um ponto em comum entre os produtores agrícolas do Brasil.

 

E a utilização desta prática juntamente implantada com técnicas de produção sustentáveis, capazes de garantir maior eficiência do uso de água e nutrientes, são os novos desafios para a agricultura, em regiões como a dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (MATOPIBA).

Dados da consultoria Céleres apontam que na última safra, a taxa de adoção de cultivos geneticamente modificados chegou a 81,6% no milho e a 91,8% na cultura da soja. No entanto, segundo especialistas, a quebra de resistência a insetos no milho Bt, que obriga o agricultor a fazer até três aplicações de inseticidas em lavouras transgênicas em algumas regiões, exige a adoção de novas estratégias. 

A pesquisadora da Embrapa Milho e Sorgo, Simone Martins Mendes diz que com o início do plantio da safra 2014/2015, alguns questionamentos devem ser considerados, sobretudo com relação às safras anteriores, observando ações que levaram os produtores a acertar. “Uma dessas questões fica por conta de ver como estamos realizando o manejo de resistência de insetos, seja em relação ao uso de inseticidas, seja em relação ao uso de plantas expressando proteínas do Bt”. 

Segundo ela, pode-se admitir que está sendo feito o controle conforme recomendado, mas utiliza-se uma única estratégia e com o mesmo mecanismo de ação. “Assim podemos ter a população de insetos-praga controlada. Porém, toda vez que usamos um mesmo modo de ação ou mecanismo, submetemos essa população a uma pressão de seleção”. Isso significa que mesmo matando os insetos suscetíveis, pode ser que alguns resistentes eventualmente sobrevivam. Com isso, se estes forem os únicos sobreviventes no campo, vão cruzar entre si, e, após algumas gerações, uma nova população resistente prevalecerá no ambiente.

Para entender melhor

O consultor de Manejo Integrado de Pragas (MIP), José Magid Waquil, conta, como exemplo, quais são as práticas adotadas para realizar o controle da lagarta-do-cartucho do milho. “Para esse inseto-praga, a principal ferramenta de manejo utilizada no país tem sido o milho Bt. Acontece que muitas vezes o produtor tem um híbrido preferido, e realiza o plantio de suas lavouras somente usando esse híbrido e com a mesma tecnologia”, diz. Segundo Waquil, esse produtor está submetendo a população de insetos-alvo que infesta sua lavoura a uma pressão de seleção para a mesma do Bt por várias gerações. “Somado a isso, em alguns casos, o agricultor não tem plantado o refúgio corretamente”, diz.

O consultor explica que a área de lavoura não Bt, ou seja, o refúgio, deve estar no máximo a 800 metros de distância das plantas transgênicas. Essa distância é necessária para que os adultos que emergirem se acasalem com aqueles poucos sobreviventes que se desenvolvem nas áreas com milho Bt. “O produtor tem que entender que não adianta fazer refúgio com distância superior a esta, pois seria o mesmo que nada, uma vez que as mariposas não se dispersam em áreas maiores”.

Simone diz que o principal risco de não usar refúgio está na rápida seleção de biótipos, ou raças das pragas-alvo resistentes às toxinas. “O acompanhamento de algumas populações resistentes às proteínas do Bt não tem mostrado a ocorrência da reversão da suscetibilidade. Portanto, evitar a seleção de insetos resistentes é a melhor estratégia”, declara.

Pensando no futuro

O monitoramento da eficácia dos eventos Bt utilizados nas lavouras deve servir de balizamento para escolha dos transgênicos a serem plantados na safra seguinte. Assim, o produtor deve conhecer as proteínas inseticidas expressas em cada um e evitar o plantio que contenha a mesma em toda sua lavoura, bem como daquelas que apresentaram menor eficácia no controle das lagartas na safra anterior. 

Sobre isso, a pesquisadora diz que também estão disponíveis para plantio no Brasil, soja e algodão expressando Bt. “Os eventos para essas culturas podem conter proteínas inseticidas semelhantes àquelas disponíveis para o milho. Dessa forma, deve-se selecionar, quando possível, aqueles que expressam diferenças para milho, soja e algodão, evitando assim, a sobreposição da mesma. Com isso, cria-se o intuito de reduzir a pressão de seleção em determinada área”.

Waquil lembra que as diferentes proteínas expressas nos eventos conferem níveis de controle diferenciados para cada uma das espécies-alvo que podem ocorrer nas lavouras de milho. “Assim, podemos esperar maior ou menor eficácia de controle das espécies de praga dependendo do transgênico escolhido”, diz. 

O MATOPIBA 

Com participação de elevada importância no cenário agrícola nacional, as regiões que englobam esta sigla têm sido instrumento de estudo e satisfação por parte de técnicos e pesquisadores. Emerson Borghi, que também é pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, diz que a região foi responsável por 8,8% da produção total de milho na última safra, 9,5% da produção de sorgo e teve participação de 10,6% na produção nacional de soja, segundo os dados da Conab. “Atualmente, essa região produz quase 10% da produção de grãos e fibras do Brasil, tendo potencial para incrementar novas áreas ao sistema produtivo sem a necessidade de desmatamento”.

Dados de março deste ano revelam que a área plantada com as três principais culturas (milho, soja e algodão) chegou a 4,3 milhões de hectares, com capacidade de ampliação para até 11,7 milhões. “Além disso, se tem registrado crescimento da produção de milho, principalmente após a soja, graças ao aparecimento de cultivares de ciclo precoce, e aumento da área plantada com milho primeira safra na Bahia, decorrente do sistema de rotação com soja e algodão”, declara.

No entanto, para a manutenção da lucratividade dos sistemas, o pesquisador reforça a necessidade de superar diversos desafios, como os ataques severos de pragas nas duas últimas safras. O produtor ainda sente calafrios quando ouve falar em nomes como Helicoverpa armigera, Spodoptera frugiperda, lagarta-falsa-medideira e mosca-branca. Além disso, deve-se realizar a implantação da cobertura vegetal permanente no solo para diminuir a evaporação da água. “Em situação de sistemas intensivos, a matéria orgânica pode servir como depósito de água para as culturas, principalmente em condições de restrição hídrica no período crítico, que pode chegar até a cinco meses”, completa Borghi.

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Da Redação

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